Kribi

março 26, 2011 § Deixe um comentário

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Kribi é uma estação balneárea dos Camarões, paraíso dos brancos e ricos. É também um porto e o ponto-final do oleoduto que traz petróleo do Tchad até a costa, gerido pela empresa francesa Bolloré (a qual retornaremos noutro momento).

Final de semana passado fomos para lá num espírito “retiro de Ioga”, absolutamente promissor (e que existe, claro, também no Brasil). O hotel parecia bom, administrado por um belga e não tão caro.  O transporte particular estava assegurado. Foi mesmo muito bom levantar às 6 da manhã e esticar os braços com o movimento tão característico da meditação, contraindo o dedo médio sobre o polegar. E a praia esteve quente, calma e sem mosquitos, soprados para longe pela brisa costeira.

Mas nunca é demais lembrarmos que estamos nos Camarões. Nas fotos acima, portanto, não dá para ver o quanto discutimos com o dono do hotel que resolveu cobrar por fora tudo que estava incluído no combinado. E que transitava por nós desde cedo meio bêbado meio simpatia.

O que dá pra ver é que o nosso mercedão, depois de mais de 20 anos de trabalhos forçados, resolveu dar um tempo. Bom… chama-se um mecânico  na cidade mais próxima (enquanto isso jogamos frescobol). Depois descobre-se que o dono da loja de auto-peças é também pastor e está nesse momento na missa. Quando ele aparece, improvisa-se uma correia nova e, só então, temos aquela sensação agradável de que o passeio vai terminar.

Afrika Ba’a de Gilbert Médou Mvomo

março 21, 2011 § Deixe um comentário

Afrika Ba’a é uma cidadezinha imaginária dos Camarões, onde os habitantes estão submergidos numa espécie de miséria letárgica. Enganavam-se, portanto, os que entre eles imaginavam que com a saída dos colonizadores franceses a vida seria melhor. Sem perspectivas, pois, Kambara, um jovem inteligente e bem educado, decide abandonar a namorada, os amigos e a família em busca da sorte grande na capital. O primeiro livro de Médou Mvomo, publicado em 1969, é despretensioso em termos de linguagem e de forma literária. Repete, assim, o velho esquema do romance de tese naturalista de fins do XIX com a finalidade de explicar a seus leitores que a elite dos povoados deve ficar onde está para dar as linhas gerais de reabilitação dos costumes e do desenvolvimento africano. É por esta razão que Kambara, mesmo depois de conquistar algum sucesso na capital, retorna para Afrika Ba’a, convencido de que ali encontrará a Felicidade. Como num passe de mágica, nada verossímil dentro do estilo realista proposto pelo autor, a cidadezinha entra num ciclo positivo de geração de riquezas, tornando-se um exemplo para o restante do país.

Balé em Yaoundé!

março 17, 2011 § Deixe um comentário

Nos sábados à tarde é possível conhecer o voluntariado de Angélica no Centre de Formation professionnelle pour la Femme – Sorawell, uma das diversas iniciativas de trabalho social da Opus Dei, presente nos Camarões desde 1988. Dois grupos de cerca de 15 meninas entre 3 e 12 anos aprendem os primeiros passos de balé numa escola de formação profissional para mulheres. Entre os alongamentos e os passes, um pouco de disciplina e sobretudo a descoberta de que podem sim, sorrir! Angélica sempre lembra que entre as respirações e as posturas, as meninas devem pensar “comme je suis belle”, “comme je suis jolie”! Longe de uma fórmula para criar bonequinhas, esse ganho de autoestima é o que elas de fato levarão consigo, sobretudo aqui, onde a vida das mulheres está submetida a mil dificuldades.

Viver nos Camarões é

março 16, 2011 § 2 Comentários

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Viver nos Camarões pode ser relativamente normal e para isso são testemunho as fotos acima, com uma padaria e um supermercado onde há mesmo queijo francês e com domingos ensolarados no clube. E agora mesmo com uma conexão internet que teima em funcionar corretamente. Tão normal que uma resolução acertada para o blog foi reduzir ao máximo, diga-se assim, os pontos de atrito com essa realidade que não chega a ser de todo hostil. Mas ontem num momento de recolhimento para o chá noturno e sem pensar muito, juntamos algumas frases para a série Viver nos Camarões é, que se inicia:

Virem te pedir num bar para que você contribua com a mensalidade da tv a cabo.

Chegar num boate de música ao vivo e encontrar dois amigos cada um abraçado com duas moças camaronesas.

Ser parado pela polícia por fazer uma conversão proibida e sem documentos (que é a nossa situação até hoje) falar que só os mostra se o chefe de polícia mostrar os dele primeiro. E funcionar.

Encontrar três ratazanas zanzando no teto de um restaurante querido.

Não conseguir descobrir o preço real de quatro amortecedores para o carro.

Ser convencido pelo cantor principal da boate, que vem nos interpelar na porta de entrada, a não ir embora com os amigos.

Ver que uma pequena discussão perto da esquina de casa é capaz de juntar rapidamente 50 pessoas.

Enfiar a roda do carro num buraco da rua e ser resgatado por dois rapazes que ajudam a erguer o carro.

Explicar para a vendedora de frutas que os seus amigos, com a indicação para comprar com ela, podem comprar também com a vendedora que está ao lado

Bandjoun

março 12, 2011 § Deixe um comentário

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Já fomos para o Oeste dos Camarões três vezes, tradicional região das etnias Bamilekê e Bamoun. Na segunda delas passamos por Bandjoun, onde está uma das cheferias mais importantes do país. Ela dispõe de um museu e de um curioso palácio de bambu e esculturas de madeira, antiga residência do chefe, que se mudou para uma casa mais moderna, embora continue vivendo separado de suas 30 mulheres, cada uma numa casinha ao lado da casa principal.

Diz-se que o palácio acima foi construído há mais de dois séculos e que foi vítima de um incêndio em 2005, cujas marcas não se vêem. Bandjoun quer dizer “terra das pessoas que compram”.

Ainda a viagem de André Gide: o hipopótamo

março 8, 2011 § 1 comentário

Traduzo mais um trecho, desta vez do Retorno do Tchad de André Gide, sobre a captura de um hipopótamo perto de Logone-Birni já nos Camarões. Acima a foto de uma das baleeiras onde o escritor viajou transportando a pele do animal. Em tempo, Gide conta mais de uma vez sobre os ínfimos salários dos carregadores e remadores que leva consigo, recompensados apesar disso, diga-se assim, por copiosas refeições provenientes da caça.

Esta manhã para compensar uma noite ruim grande alegria: o hipopótamo morto apareceu. Parece um monte de plantas, um bloco de terra, perto da margem íngreme, formando uma ilhota. Enviamos uma das baleeiras para reconhecimento. Era ele! Pulos e gritos de alegria dos homens. Nós interrompemos o breakfast, e instalados na outra baleeira, alcançamos o monstro. Ele está encalhado num baixio, de onde é difícil tirá-lo. Empurramos com varas, mas sem nenhuma sincronia; os esforços se dispersam e todos os nossos homens falam junto. Esses indígenas, tão próximos da natureza que poderíamos julgá-los extremamente hábeis para trabalhos simples, são de um atrapalhamento e de uma estupidez inacreditáveis tão logo se trata de inventar algo novo. Enquanto todos seguram o animal de lado, um dentre eles, da baleeira, enfiando a vara de atravessado, contraria os esforços dos outros. Infelizmente, aqueles entre nós que poderiam dar ordens não falam a sua língua. Apesar disso, com uma corrente na pata, o hipopótamo acabou por se deixar rebocar pela baleeira de Zézé. Subimos na nossa e preparamos a filmagem. A luz (desgraça) não é boa. – Bem longe da margem, o hipopótamo encalha de novo. É então que ao ver a sua cabeça percebo a enormidade do corpo. Eles se põem a vinte para fazê-lo rolar sobre si-mesmo, expondo alternadamente as costas, o flanco, depois o ventre rosado sobre o qual se dobram amavelmente as patas curtíssimas.

Ei-lo então na margem e procede-se o destrinchar. Trinta e quatro homens cheios de entusiasmo trabalham ao mesmo tempo, com três facões e algumas facas, ridiculamente pequenas para tamanha empreitada. Outros seguram os membros ou puxam a pele que se entalha. Todos gritam, se agitam, gesticulam; mas sem nenhuma disputa. Cada um se diverte e ri. A lenta partilha, a desagregação progressiva dessa massa dura duas boas horas. Pedaço por pedaço, tudo é retirado. As tripas que se esvaziam, o estômago que se abre expelindo odores horrorosos. Um vento bem forte felizmente os varre para longe. Quando se arrancam os pulmões o sangue coalhado escapa da veia cava como uma longa serpente purpúrea; creio que vou passar mal. Nada é rejeitado, negligenciado. Os abutres e as águias que giram sobre nós ficarão decepcionados. Eles se tornam pouco a pouco mais audaciosos: alguns, com um brusco e vão mergulho, quase nos roçam com suas asas. Volto à baleeira e tomo um gole de conhaque para me restabelecer. (…)

Nós comemos de almoço um bife de hipopótamo bem bom! Depois voltamos às baleeiras carregadas de carne. O odor é infecto, e ficará pior nos próximos dias. Para retornar à minha cama, escalo um pé, passo por cima de um maxilar e de um grande rolo de pele mais espessa do que qualquer tapete. Sobre o shimbeck, uma montanha de restos sanguinolentos, víceras, inúmeros pedaços empesteados que o sol tem por missão fumegar; e, suspensos nos flancos das baleeiras por longas cordas de palmas, festões de couro violáceos. Horror! através do teto do shimbeck chove sangue. Não é nem mesmo sangue: mas pus.

Colecionando cartões

março 1, 2011 § Deixe um comentário

 

 

 

 

 

 

Em tempos de Mister Cameroun – sonhamos com a revolução e levamos essa! – a imagem de um cartão de visitas que recebi em Fouban acompanhado da frase: “Talvez a senhora possa nos dar umas dicas quando estiver em Yaoundé”. Nosso grande amigo e promotor do Mister Cameroun, Yves Eya’a, nem suspeita desse meu dom.

André Gide no Congo e no Tchad

março 1, 2011 § Deixe um comentário

Nos últimos dias venho lendo dois livros, Viagem ao Congo e Retorno do Tchad de André Gide, ambos relatos de uma longa viagem feita pelo escritor francês por esses cantos da África nos anos 1920. Viagem aventurosa, como talvez aquela de Flaubert no norte da África, para a qual se contava com pelo menos 40 carregadores, caixas de mantimentos, tendas (tipóias) onde os viajantes eram transportados. Através dela Gide vai se acercando pouco a pouco dos problemas da colonização francesa, sobretudo relacionados com a exploração do trabalho, que permanece em grande medida escravo.

Pensei em juntar alguns trechos e traduzi-los, como diria Gide no início de sua viagem, “pour le plaisir”. A edição é a de 1927-1928 da Gallimard, reimprensa em bolso. A foto acima é de Marc Allégret e está na Médiathèque de l’Architecture et du Patrimoine. O resto das fotos da viagem está no link.

Para não ser de nenhum modo injusto, é preciso dizer que o dia esteve bonito, mesmo belo, próximo de sua metade. Mas todas as manhãs, todas, sem exceção, são cinzas, mornas, veladas, de uma tristeza indizível, incomparável. Nesta manhã ao menos um espesso nevoeiro amenizava os tons dos verdes e limitava felizmente a visão – que senão só se estende, no amanhecer, sobre o pálido, o verde sem alegria deum céu sem promessas, uma paisagem onde, me parece, nenhum deus habita, nenhuma dríade, nenhum fauno; paisagem implacável, sem mistério e sem poesia. (p. 163)

Os dois filhos de Bafio, belos, limpos (aparentemente) e dignos, vieram de cavalo a nosso encontro. Chegando aqui, têm sede e pedem algo para beber. Estou enganado? Um deles faz o sinal da cruz antes de aproximar a cabaça dos lábios. Seria um “convertido”?… Mas não. Ele não renunciou ao Islã. Se faz o sinal, é para ter uma garantia a mais. (p. 155)

Enormes campos de mandioca não colhida formando uma pequena mata; e mais adiante campos de rícino igualmente não colhido, todos os homens na borracha, ou na prisão, ou mortos, ou fugidos. (p. 122)

Marriage

dezembro 19, 2010 § Deixe um comentário

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Solidário da nossa curiosidade, há tempos um amigo camaronês, Romuald, nos convidou para que assistíssemos ao casamento do irmão. Seriam 3 dias de festa e tudo começaria às 8 da manhã para terminar noite afora. Aceitamos ir na parte religiosa do segundo dia porque era de tarde e porque nos víamos já um pouco vacinados com a alternância típica das comemorações: festa/muita comida e muita cerveja quente; festa/muita comida e muita cerveja quente.

O casório na Igreja, que começou com suas habituais 3 horas de atraso, foi realmente impressionante. Tanto que na hora da cestinha entreguei todo o dinheiro que tínhamos, distraída com tanta novidade. O coro era espetacular e cantava músicas religiosas em nada parecidas com as de outros países. Cantavam e dançavam ao mesmo tempo. Mas não eram só eles: a noiva, o noivo e até o padre dançaram. Depois do beijo (que foi realmente um beijaço!), todos os convidados saíram dos seus lugares e tomaram todo o espaço da igreja. Entre uma sacudida e outra, um montão de gritos interrompidos por batidas na boca, como se estivessem numa cerimônia dentro da tribo. Isto tudo ocorreu depois do sermão, quando o padre insistiu, sem medir palavras, que os noivos se casavam entre si e não com o resto das respectivas famílias. Trocando em miúdos “Irmãos e irmãs, NADA de poligamia!”.

Agradecemos aqui publicamente ao nosso amigo Romuald, que nos convidou para a festa e que deixou que a gente entendesse que na África a Igreja Católica é mais tolerante do que sonha a nossa pobre imaginação.

Ô iá-iá, ô iô-iô

dezembro 10, 2010 § Deixe um comentário

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Acima algumas fotos de uma festa que assistimos no fim de semana passado. Pegamos o final de uma comemoração que dura em geral 7 dias e que ocorre de 2 em dois anos numa cidade chamada Foumban, no Oeste dos Camarões. Na sexta à noite entrou o Ngoun na cidade – um espírito, talvez, que protege a cidade, o povo e a tradição. Ele entra no palácio do Sultão com os príncipes e os guerreiros da tribo, além de alguns chefes espirituais. Um desses chefes, quando viu as mulheres do nosso grupo, veio pedir que nós nos afastássemos, pois mulheres não devem ver o Ngoun. É claro que quando as luzes se apagaram nós mulheres fomos dar uma espiada. Vimos tudo e nada – porque não dá pra entender o que é mágico e o que é gente e bagunça! – vimos tudo (e nada) mesmo sob a pena de nunca mais termos filhos (o sultão tem 8 mulheres e em torno de 60 filhos…)!
No dia seguinte, sábado, fomos à parte oficial da festa: uma série de desfiles diante do sultão do povo Bamoun e da tribuna, com placas das dinastias anteriores (a primeira é do século XV). Também era o momento da reunião dos chefes tribais para “avaliar” os dois anos que se passaram de governo e para fazer alguns pedidos básicos (escolas, controle das terras, melhora da cidade, etc, etc). Houve discurso do Sultão, houve a oferenda de um cordeiro e um pouco de dança tradicional de cada região do país (pois cada uma envia um grupo de representantes para o Ngoun).
No domingo, último dia, foi como se estivéssemos no nosso carnaval de rua, com pessoas fantasiadas de guerreiros que andavam, dançavam e simulavam as guerras que no passado o povo Bamoun enfrentou. Cantavam algo que nos parecia muito familiar: “Oh, iá-iá”, “Oh, iô-iô”,  “Oh, iá-iá”, “Oh, iô-iô”. Nos divertimos muito nesse último dia e fomos muito bem acolhidos. Se é verdade que para nós as pessoas do desfile eram uma atração, também é verdade que para eles nós éramos a grande diversão da festa. Cada um de nós posou para mais de 50 fotos, sempre ao lado de guerreiros e de guerreiras de todas as idades.
Éramos um grupo de15 pessoas e aí estão um pouco das fotos de cada um: Boris e Ana; Vanessa e Coque; Sammy e Hanna; Pilar, Tita, Albert, Sophie, Taric, Jenny, Michelle.

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