50/50

abril 4, 2011 § Deixe um comentário

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Semana passada, depois de um dos pedidos incontornáveis de Pilar, Albert nos levou para conhecer o 50/50 e, de quebra, um amigo seu, que lhe ajudou muito durante o belo trabalho de foto-reportagem que fez com as famílias que tiveram ou terão as suas casas destruídas para dar lugar aos novos projetos urbanos da cidade.

Pois bem, o Cinquante/Cinquante é um clássico do espetinho de carne e de fígado. Cada um, de mais ou menos 50 mm, vale 50 Fcfa ou R$ 0,20. Como são minúsculos, mas suculentos, a idéia é pedir logo 10, atravessar a rua e sentar no bar da frente. De tempos em tempos é preciso retornar para pedir mais 10, que sairão em 5 ou 6 minutos, bem quentes. Estamos no coração da Briqueterie, o bairro muçulmano de Yaoundé, a poucos metros da mesquita mais antiga da cidade. Daí duas conseqüências principais: não há cerveja no bar e, detalhe nada desprezível, as pessoas são para lá de tranqüilas. Rezar cinco vezes por dia tem lá seus efeitos! Nada de pequenos comentários, olhares atravessados ou curiosidade excessiva. No 50/50 vão as famílias camaronesas e alguns estrangeiros interessados em provar um pouco do sabor local.

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Viver nos Camarões é ainda

abril 4, 2011 § 2 Comentários

Acredito nas virtudes terapêuticas do discurso. Acho mesmo que os blogs de viagem em algumas circunstâncias asseguram uma distância reflexiva com relação à realidade que é próxima de uma prática de “higiene mental”, conceito antigo, do início do século XX. Preâmbulo savant para dizer que a séria Viver nos Camarões continua, sabe-se lá por quantos episódios. Assim, viver nos Camarões é ainda:

Descobrir que o seu semestre de trabalho na universidade foi encolhido para dois meses, abril e maio. E que ainda não começou.

Ir a festas de pessoas diferentes e encontrar as mesmas pessoas.

Imaginar-se diante de qualquer febre ou desarranjo vítima ou de malária ou de cólera.

Ser pago com dinheiro falso.

Notar com certa recorrência que as datas de validade dos alimentos no supermercado foram alteradas.

Ter certeza que o peixeiro te engana com o peso da balança.

Receber as provas dos alunos sem identificação para não correr o risco de ver-se subornado.

Ser convidado a casamentos e enterros de pessoas que nunca viu.

A foto acima é de meus alunos fazendo o exame final, que foi sendo adiado por motivos de organização por quase dois meses. Aliás, chegando na universidade nesse mesmo dia, descobri que as provas não estavam impressas e que a matriz, supostamente deixada no serviço de “anonimato”, tinha desaparecido. De todo modo, em algum momento falarei sobre os meus alunos e a universidade para responder ao Jorge que sempre me pergunta sobre isso.

Patubatê

março 31, 2011 § Deixe um comentário

Patubatê é um grupo de percussão brasileiro que mistura música eletrônica com batidas populares: o samba, o maracatú, o baião. Atualmente viajam por quatro países africanos (Botswuana, Quênia, Camarões e Gabão), indo a escolas com seus instrumentos feitos de sucata, pregos e garrafas, e realizando algumas apresentações. É uma iniciativa interessante do governo brasileiro, que foge ao improviso e à falta de política cultural de nossas embaixadas, normalmente autônomas quanto à promoção de eventos.

Nesses três dias estiveram por aqui e tocaram mesmo no simpático cabaré La Terre Battue, recentemente reaberto com equipamento de som novo. Com um pequeno atraso, em virtude da corrente elétrica incompatível com essa “nova realidade”, apesar disso, conseguiram seduzir um público já totalmente afeito à batucada.

Kribi

março 26, 2011 § Deixe um comentário

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Kribi é uma estação balneárea dos Camarões, paraíso dos brancos e ricos. É também um porto e o ponto-final do oleoduto que traz petróleo do Tchad até a costa, gerido pela empresa francesa Bolloré (a qual retornaremos noutro momento).

Final de semana passado fomos para lá num espírito “retiro de Ioga”, absolutamente promissor (e que existe, claro, também no Brasil). O hotel parecia bom, administrado por um belga e não tão caro.  O transporte particular estava assegurado. Foi mesmo muito bom levantar às 6 da manhã e esticar os braços com o movimento tão característico da meditação, contraindo o dedo médio sobre o polegar. E a praia esteve quente, calma e sem mosquitos, soprados para longe pela brisa costeira.

Mas nunca é demais lembrarmos que estamos nos Camarões. Nas fotos acima, portanto, não dá para ver o quanto discutimos com o dono do hotel que resolveu cobrar por fora tudo que estava incluído no combinado. E que transitava por nós desde cedo meio bêbado meio simpatia.

O que dá pra ver é que o nosso mercedão, depois de mais de 20 anos de trabalhos forçados, resolveu dar um tempo. Bom… chama-se um mecânico  na cidade mais próxima (enquanto isso jogamos frescobol). Depois descobre-se que o dono da loja de auto-peças é também pastor e está nesse momento na missa. Quando ele aparece, improvisa-se uma correia nova e, só então, temos aquela sensação agradável de que o passeio vai terminar.

Afrika Ba’a de Gilbert Médou Mvomo

março 21, 2011 § Deixe um comentário

Afrika Ba’a é uma cidadezinha imaginária dos Camarões, onde os habitantes estão submergidos numa espécie de miséria letárgica. Enganavam-se, portanto, os que entre eles imaginavam que com a saída dos colonizadores franceses a vida seria melhor. Sem perspectivas, pois, Kambara, um jovem inteligente e bem educado, decide abandonar a namorada, os amigos e a família em busca da sorte grande na capital. O primeiro livro de Médou Mvomo, publicado em 1969, é despretensioso em termos de linguagem e de forma literária. Repete, assim, o velho esquema do romance de tese naturalista de fins do XIX com a finalidade de explicar a seus leitores que a elite dos povoados deve ficar onde está para dar as linhas gerais de reabilitação dos costumes e do desenvolvimento africano. É por esta razão que Kambara, mesmo depois de conquistar algum sucesso na capital, retorna para Afrika Ba’a, convencido de que ali encontrará a Felicidade. Como num passe de mágica, nada verossímil dentro do estilo realista proposto pelo autor, a cidadezinha entra num ciclo positivo de geração de riquezas, tornando-se um exemplo para o restante do país.

Balé em Yaoundé!

março 17, 2011 § Deixe um comentário

Nos sábados à tarde é possível conhecer o voluntariado de Angélica no Centre de Formation professionnelle pour la Femme – Sorawell, uma das diversas iniciativas de trabalho social da Opus Dei, presente nos Camarões desde 1988. Dois grupos de cerca de 15 meninas entre 3 e 12 anos aprendem os primeiros passos de balé numa escola de formação profissional para mulheres. Entre os alongamentos e os passes, um pouco de disciplina e sobretudo a descoberta de que podem sim, sorrir! Angélica sempre lembra que entre as respirações e as posturas, as meninas devem pensar “comme je suis belle”, “comme je suis jolie”! Longe de uma fórmula para criar bonequinhas, esse ganho de autoestima é o que elas de fato levarão consigo, sobretudo aqui, onde a vida das mulheres está submetida a mil dificuldades.

Viver nos Camarões é

março 16, 2011 § 2 Comentários

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Viver nos Camarões pode ser relativamente normal e para isso são testemunho as fotos acima, com uma padaria e um supermercado onde há mesmo queijo francês e com domingos ensolarados no clube. E agora mesmo com uma conexão internet que teima em funcionar corretamente. Tão normal que uma resolução acertada para o blog foi reduzir ao máximo, diga-se assim, os pontos de atrito com essa realidade que não chega a ser de todo hostil. Mas ontem num momento de recolhimento para o chá noturno e sem pensar muito, juntamos algumas frases para a série Viver nos Camarões é, que se inicia:

Virem te pedir num bar para que você contribua com a mensalidade da tv a cabo.

Chegar num boate de música ao vivo e encontrar dois amigos cada um abraçado com duas moças camaronesas.

Ser parado pela polícia por fazer uma conversão proibida e sem documentos (que é a nossa situação até hoje) falar que só os mostra se o chefe de polícia mostrar os dele primeiro. E funcionar.

Encontrar três ratazanas zanzando no teto de um restaurante querido.

Não conseguir descobrir o preço real de quatro amortecedores para o carro.

Ser convencido pelo cantor principal da boate, que vem nos interpelar na porta de entrada, a não ir embora com os amigos.

Ver que uma pequena discussão perto da esquina de casa é capaz de juntar rapidamente 50 pessoas.

Enfiar a roda do carro num buraco da rua e ser resgatado por dois rapazes que ajudam a erguer o carro.

Explicar para a vendedora de frutas que os seus amigos, com a indicação para comprar com ela, podem comprar também com a vendedora que está ao lado